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sábado, 7 de janeiro de 2017

O'Hurley

01 - A Última Mulher Honesta
— Pode gritar o quanto quiser, senhora O'Hurley.
A respiração de Molly se transformou em uma sucessão de gemidos. O suor escorria por suas faces enquanto cravava os dedos na mesa de partos e se curvava.
— Molly O'Hurley não grita quando traz seus filhos ao mundo.
Não era uma mulher grande, mas sua voz, mesmo no tom normal no qual falava, chegava a todos os recantos da sala. Tinha um som vibrante, um ar musical, embora tenha tido que reunir até suas últimas forças para consegui-lo. Seu marido a tinha levado ao hospital a toda velocidade, minutos antes das últimas etapas do parto.
Não tinha havido tempo para prepará-la, nem para palavras de consolo nem para gestos carinhosos. Assim que o obstetra a examinou, tinham-na levado para a sala de partos completamente vestida.

O'Hurley

02 - Dança dos Corações
Durante o descanso entre a comida e os coquetéis, o clube ficou vazio. O piso estava um pouco deteriorado mas suficientemente limpo, e a pintura das paredes acusava o ataque constante da fumaça dos cigarros. Reconhecia-se o aroma clássico daquele tipo de lugar: bebida envelhecida, café e espaço fechado. Para certo tipo de pessoas, aquele ambiente era um verdadeiro lar. E para os O'Hurley, onde se concentrava uma audiência, havia um lar.
Naquele momento, a luz do sol derramava-se através das duas janelas deixando que tanto o pó quanto as marcas e defeitos na superfícies dos móveis implacavelmente visíveis. O espelho situado atrás do balcão de bebidas absorvia uma parte daquela luz, mas sobre tudo a refletia para o pequeno cenário situado no centro da sala.
-Vamos, Abby, sorria.

O'Hurley

03 - A Flor da Pele
-Não sei o que vamos fazer com essa garota.
-Vamos, Molly -com um olho posto no espelho, Frank O'Hurley acrescentou um pouco de maquiagem em seu queixo para certificar-se de que o rosto não brilhasse no cenário-. Não se preocupe tanto.
-Me preocupar? -enquanto se retorcia para subir o zíper das costas do vestido, Molly permaneceu na porta do camarim para poder observar o corredor-. Frank, temos quatro filhos e amo a todos. Mas Chantal pode ser um problema.

O'Hurley

04 - Depois de Seus Passos
-Sobe o ritmo na apresentação, Tracey, moço, não deixe que decaia.
Frank Ou'Hurley se achava em sua marca, à direita do cenário, preparado para realizar outra vez o número de apresentação. As três noites de atuação no Terre Haute possivelmente não fossem o ponto mais importante de sua carreira, e sob nenhum conceito eram a culminação de seus sonhos, mas ia lhe dar ao público o espetáculo pelo que tinha pago. Cada atuação era um ensaio para a grande oportunidade.
Quando chegou o momento, inundou-se no número com o entusiasmo de um homem da metade de sua idade. O calendário podia estipular que tinha quarenta anos, mas seus pés sempre teriam dezesseis;
O mesmo tinha escrito o número, com a grande esperança de que chegasse a converter-se no selo dos Ou'Hurley. Ao piano, seu filho maior e único varão tratava de lhe dar certa vida a uma melodia que havia meio doido infinidade de vezes... E sonhava com outras coisas e outros lugares.